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Forma e chão

  • daniloautorlivre
  • 11 de abr.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 26 de abr.

Sobre o que se perdeu na formação literária recente


Sou escritor.

Li bastante. E ainda leio.

Não para parecer culto. Nem para posar de homem instruído.

Li porque gosto. E porque ninguém aprende a escrever sem antes aprender a ler.

Ler muito não produz bons escritores. Produz, no máximo, a possibilidade de aprender.

Os primeiros textos quase sempre são ruins. Confusos. Imitativos. Por vezes, medonhos.

Isso é normal.

Quando há chão.

O problema da formação literária recente não é o excesso de horror. Nem de feiura. Nem de sordidez.

É a falta de chão.

O jovem escritor já não começa sobre pedra firme. Começa sobre lama.

Durante muito tempo, parte da formação literária nacional privilegiou autores de enorme talento cuja força estava menos na construção do que na voz, no clima e na figura autoral.

Não falta talento ali.

Falta base.

Em vez de aprender construção, o iniciante aprende gesto. Em vez de aprender estrutura, aprende atmosfera. Em vez de aprender forma, aprende pose.

E disso nasce um vício.

O vício da figura autoral.

Quando o escritor substitui mundo, conflito e estrutura por uma coleção de maneirismos.

Choque como método. Sordidez como identidade. Introspecção sem mundo. Degradação como estética.

Nada disso ensina alguém a escrever.

Ensina apenas a parecer escritor.

O jovem não aprende o essencial.

Não aprende a abrir uma narrativa. Não aprende a sustentar uma cena. Não aprende a conduzir tensão. Não aprende a fechar um destino.

Aprende apenas a repetir clima. Choque. Lama.

O resultado é previsível.

Textos que começam no abismo. E terminam no mesmo lugar.

O horror nunca foi o problema.

O horror sempre existiu.

A diferença está na forma.

Em boa literatura, o horror tem causa. Tem função. Tem consequência.

Ele entra. Cumpre seu papel. E termina.

Não existe para ornamentar a página. Nem para substituir substância.

Quando bem usado, ensina.

Quando mal usado, vicia.

O iniciante pode até falhar depois de ler boa literatura.

Mas sabe onde pisa.

E isso muda tudo.

Sem chão, não há técnica. Sem técnica, não há construção. Sem construção, não há literatura.

Há apenas lama.

E lama não sustenta ninguém.



 
 
 

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