Por que nossa literatura encolheu até caber num apartamento
Atualizado: 4 de out.
Há algumas décadas, a imaginação literária brasileira começou a sofrer um estreitamento silencioso. Não por censura, pobreza material ou falta de talento, mas por outra razão: o enfraquecimento da imaginação moral.
O romance deixou de olhar para fora — para cidades, povos, guerras, fronteiras e conflitos civilizacionais — e passou a olhar cada vez mais para dentro. Não necessariamente para a alma humana, mas para sua gestão emocional.
A literatura encolheu. Em muitos casos, cabe numa sala pequena, com janelas cinzentas e personagens consumidos pela própria vida interior. O drama íntimo deixou de ser meio e passou a ser fim.
Há bons romances assim, naturalmente. O problema não é a intimidade. É a redução do horizonte.
O país que produziu Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado também produziu uma literatura capaz de olhar para território, povo, conflito, formação e destino. Hoje, com frequência, prefere transformar o romance em espelho.
1. O sentimentalismo como substituto da imaginação
O sentimentalismo adquiriu aparência de profundidade.
Basta declarar fragilidade, expor sofrimento e organizar a narrativa ao redor de uma sensibilidade ferida. Isso pode produzir confissão. Nem sempre produz literatura.
A sensibilidade verdadeira não precisa se anunciar. Ela atua na forma, na escolha, na consequência.
2. O desaparecimento do épico
Nenhuma literatura vive apenas de grandeza, mas nenhuma permanece inteiramente viva quando perde a capacidade de imaginá-la.
O romance, que pode ampliar o horizonte do leitor, passou muitas vezes a se contentar com a autobiografia diluída, a autoficção terapêutica e o ensaio melancólico.
Batalhas, reinados, desertos, cercos, travessias, ruínas, impérios e fundações não são superiores por si mesmos. Mas pertencem a uma literatura que aceita pensar em escala.
E escala importa.
3. A literatura como espelho
Quando uma cultura perde interesse pelo que a ultrapassa, começa a ruminar a si mesma.
Multiplicam-se textos voltados à validação pessoal, à exposição de fragilidades e à busca de reconhecimento. O escritor deixa de olhar o mundo e passa a pedir ao mundo que o confirme.
O resultado é uma literatura que abre cada vez menos janelas.
E aumenta o número de espelhos.
4. A imaginação moral
Há uma imaginação que descreve e outra que ordena.
A segunda permite perceber custo, lealdade, dever, queda, permanência, fundação. Permite contar histórias maiores do que o estado emocional imediato de quem escreve.
Sem ela, a literatura pode continuar tecnicamente elegante, mas perde espinha.
A imaginação moral não exige sermão. Exige consequência.
5. O que fazer
Escrever o que falta.
Recuperar escala. Reinstalar conflito, travessia, custo e decisão. Voltar a imaginar personagens que não existam apenas para explicar a própria dor.
O Brasil está saturado de narrativas sobre silêncios íntimos, texturas domésticas e relações em suspensão.
Isso também pode ser literatura.
Mas não pode ser tudo.
Ainda há espaço para histórias que tratem de cidades, instituições, guerras, lealdades, ruínas, fundações e escolhas irreversíveis.
Histórias que não peçam ao leitor apenas identificação.
Que exijam dele imaginação. E talvez seja disso que mais precisamos agora: não de uma literatura que nos devolva continuamente a nós mesmos, mas de uma literatura que nos obrigue a olhar para além.


Comentários