O país sem épico
- daniloautorlivre
- 11 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de abr.
Por que nossa literatura encolheu até caber num apartamento
Há algumas décadas, a imaginação literária brasileira começou a sofrer um estreitamento silencioso. Não foi censura, nem pobreza material, nem falta de talento. O empobrecimento veio de outro lugar: o desaparecimento da imaginação moral.
O romance deixou de olhar para fora. Para cidades, povos, guerras, fronteiras e conflitos civilizacionais. Passou a olhar para dentro do apartamento do narrador. Não para a alma humana, mas para sua gestão emocional.
A literatura encolheu tanto que hoje cabe numa sala pequena, com janelas cinzentas e personagens que passam duzentas páginas lamentando a própria vida. É o drama íntimo como fim em si mesmo: “sou infeliz”, “não vejo verde da minha janela”, “não tenho namorada”, “estou destruído”.
É impressionante que um escritor tenha estômago para falar de si por duzentas páginas. Falta a esse pretenso escritor não apenas imaginação moral, mas também alguma medida de vergonha.
O país que já teve Euclides da Cunha, Graciliano, Lins do Rego e Jorge Amado produziu, por escolha e não por necessidade, uma geração de escritores que transformaram o romance em terapia guiada.
1. O sentimentalismo como substituto da imaginação
O sentimentalismo virou uma espécie de coragem artificial. Basta declarar-se sensível para adquirir aparência de profundidade.
É fácil. É barato. E rende atenção.
Mas é pobre como literatura.
A sensibilidade verdadeira não se confessa. Atua.
2. A morte do épico
Nenhuma civilização produz grande arte quando perde a capacidade de imaginar grandeza.
A nossa perdeu.
Por cansaço. Por ressentimento. E por uma forma discreta de covardia estética.
O romance, que deveria ampliar o horizonte do leitor, foi substituído pela autoficção terapêutica e pelo ensaio melancólico de redes sociais.
O escritor brasileiro médio já não imagina batalhas, reinados, desertos, cercos, travessias, ruínas, impérios ou fundações.
Imagina a própria vida emocional.
E isso sempre rende pouco.
3. A literatura como espelho
Quando uma cultura perde o interesse pelo épico, deixa de imaginar o que poderia ser e passa a ruminar o que já é.
Multiplicam-se textos voltados à validação pessoal, à busca de reconhecimento e à exposição de fragilidades como capital simbólico.
O intelectual deixa de ser referência de pensamento e passa a ser objeto de aprovação social.
O resultado é previsível.
Uma literatura que fala apenas de si. Das suas dores. Das suas carências. Da sua necessidade de ser vista.
Uma literatura que não abre janelas.
Apenas confirma espelhos.
4. A imaginação moral
Há dois tipos de imaginação.
A imaginação estética, que descreve.
E a imaginação moral, que eleva.
A primeira continua ativa. Está por toda parte.
A segunda rareou.
E é ela que sustenta o épico.
A imaginação moral permite que um povo conte histórias maiores do que seus problemas imediatos.
Sem ela, restam narrativas íntimas que não formam, não ampliam e não deixam rastro.
Uma literatura sem épico é uma literatura sem espinha.
5. O que fazer
Escrever o épico que falta.
Reinstalar a ideia de grandeza no imaginário.
Recusar o sentimentalismo fácil.
E devolver ao leitor aquilo que ele esqueceu que queria: uma história que o ultrapasse.
O Brasil está saturado de narrativas que descrevem a cor da parede, a textura do lençol e os silêncios de um relacionamento.
Falta quem narre custo, decisão, conflito, travessia, perda e fundação.
Falta quem escreva personagens inteiros.
Porque é disso que o leitor precisa.
Não de fragmentos.
Mas de inteireza.


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