top of page

Por que nossa literatura encolheu até caber num apartamento

daniloautorlivre
11 de abr.
2 min de leitura

Atualizado: 4 de out.

Há algumas décadas, a imaginação literária brasileira começou a sofrer um estreitamento silencioso. Não por censura, pobreza material ou falta de talento, mas por outra razão: o enfraquecimento da imaginação moral.

O romance deixou de olhar para fora — para cidades, povos, guerras, fronteiras e conflitos civilizacionais — e passou a olhar cada vez mais para dentro. Não necessariamente para a alma humana, mas para sua gestão emocional.

A literatura encolheu. Em muitos casos, cabe numa sala pequena, com janelas cinzentas e personagens consumidos pela própria vida interior. O drama íntimo deixou de ser meio e passou a ser fim.

Há bons romances assim, naturalmente. O problema não é a intimidade. É a redução do horizonte.

O país que produziu Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado também produziu uma literatura capaz de olhar para território, povo, conflito, formação e destino. Hoje, com frequência, prefere transformar o romance em espelho.

1. O sentimentalismo como substituto da imaginação

O sentimentalismo adquiriu aparência de profundidade.

Basta declarar fragilidade, expor sofrimento e organizar a narrativa ao redor de uma sensibilidade ferida. Isso pode produzir confissão. Nem sempre produz literatura.

A sensibilidade verdadeira não precisa se anunciar. Ela atua na forma, na escolha, na consequência.

2. O desaparecimento do épico

Nenhuma literatura vive apenas de grandeza, mas nenhuma permanece inteiramente viva quando perde a capacidade de imaginá-la.

O romance, que pode ampliar o horizonte do leitor, passou muitas vezes a se contentar com a autobiografia diluída, a autoficção terapêutica e o ensaio melancólico.

Batalhas, reinados, desertos, cercos, travessias, ruínas, impérios e fundações não são superiores por si mesmos. Mas pertencem a uma literatura que aceita pensar em escala.

E escala importa.

3. A literatura como espelho

Quando uma cultura perde interesse pelo que a ultrapassa, começa a ruminar a si mesma.

Multiplicam-se textos voltados à validação pessoal, à exposição de fragilidades e à busca de reconhecimento. O escritor deixa de olhar o mundo e passa a pedir ao mundo que o confirme.

O resultado é uma literatura que abre cada vez menos janelas.

E aumenta o número de espelhos.

4. A imaginação moral

Há uma imaginação que descreve e outra que ordena.

A segunda permite perceber custo, lealdade, dever, queda, permanência, fundação. Permite contar histórias maiores do que o estado emocional imediato de quem escreve.

Sem ela, a literatura pode continuar tecnicamente elegante, mas perde espinha.

A imaginação moral não exige sermão. Exige consequência.

5. O que fazer

Escrever o que falta.

Recuperar escala. Reinstalar conflito, travessia, custo e decisão. Voltar a imaginar personagens que não existam apenas para explicar a própria dor.

O Brasil está saturado de narrativas sobre silêncios íntimos, texturas domésticas e relações em suspensão.

Isso também pode ser literatura.

Mas não pode ser tudo.

Ainda há espaço para histórias que tratem de cidades, instituições, guerras, lealdades, ruínas, fundações e escolhas irreversíveis.

Histórias que não peçam ao leitor apenas identificação.

Que exijam dele imaginação. E talvez seja disso que mais precisamos agora: não de uma literatura que nos devolva continuamente a nós mesmos, mas de uma literatura que nos obrigue a olhar para além.

 
 
 

Comentários


bottom of page