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Quando tudo virou direita

  • daniloautorlivre
  • 11 de jul.
  • 2 min de leitura

Como a política brasileira perdeu as distinções e ganhou uma torcida.



Durante boa parte da década de 2010, tornou-se comum alguém se definir como “conservador nos costumes e liberal na economia”.


A fórmula nunca foi muito precisa. Conservadorismo não é apenas uma posição sobre família, religião ou moralidade sexual; liberalismo também não se reduz à defesa de privatizações, impostos menores e menos intervenção estatal. Eram tradições políticas diferentes, com histórias, princípios e contradições próprias.


Ainda assim, eu gostava da expressão.


Ela revelava uma sociedade começando a aprender que as ideias políticas não cabiam necessariamente num único eixo. Uma pessoa poderia ser conservadora em determinadas matérias e liberal em outras. Poderia defender o mercado sem abandonar a prudência institucional. Poderia valorizar a família sem transformar a religião em instrumento partidário. Poderia discordar da esquerda sem aderir a qualquer coisa que se apresentasse como direita.


A definição era imperfeita, mas refletia uma época de aprendizado.


Depois vieram os doutores da lei.


Chegaram as definições rígidas, os testes de pureza, os catecismos digitais e a necessidade de enquadrar cada pessoa num campo fechado. Já não bastava dizer o que se pensava sobre economia, costumes, instituições ou política externa. Era necessário declarar a que lado se pertencia.


O bolsonarismo acelerou essa transformação.


Liberalismo econômico, conservadorismo moral, militarismo, nacionalismo, antipetismo, religiosidade, ressentimento social e culto à personalidade foram colocados no mesmo saco. Todas as diferenças desapareceram sob uma palavra cada vez mais vazia: direita.


Não importava que muitas dessas correntes fossem incompatíveis entre si.

O conservadorismo clássico desconfia de líderes providenciais, movimentos de massa e rupturas institucionais. O liberalismo político depende de limites ao poder e respeito às regras. O cristianismo não deveria ser confundido com brutalidade verbal, idolatria partidária ou desprezo pelo adversário. O nacionalismo frequentemente entra em conflito com o liberalismo econômico.


Mesmo assim, tudo passou a ser tratado como se formasse uma doutrina única e coerente.


Não formava.


Formava uma torcida.


A pergunta deixou de ser “o que você pensa sobre este assunto?” e passou a ser “de que lado você está?”. Escolhido o lado, esperava-se que todo o restante viesse no pacote: os mesmos aliados, os mesmos inimigos, as mesmas indignações e até o mesmo vocabulário.


Perdemos, assim, algo que aquela velha e defeituosa expressão ainda conservava: a percepção de que conceitos distintos continuavam sendo distintos.


Talvez “conservador nos costumes e liberal na economia” jamais tenha sido uma boa definição. Mas pelo menos pressupunha que conservação e liberalismo não eram a mesma coisa. Havia ali uma tentativa de compreender o mundo, ainda que rudimentar.


Hoje, em grande parte do debate público, já não há sequer essa tentativa.


Tudo virou identidade.


Tudo virou direita ou esquerda.


E, quando palavras passam a significar tudo, acabam não significando mais nada.

 
 
 

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