Quando tudo virou direita
Atualizado: 4 de out.
Como a política brasileira perdeu as distinções e ganhou uma torcida.

Durante boa parte da década de 2010, tornou-se comum alguém se definir como “conservador nos costumes e liberal na economia”.
A fórmula nunca foi muito precisa. Conservadorismo não é apenas uma posição sobre família, religião ou moralidade sexual; liberalismo também não se reduz à defesa de privatizações, impostos menores e menor intervenção estatal. Eram tradições políticas diferentes, com histórias, princípios e tensões próprias.
Ainda assim, eu gostava da expressão.
Ela revelava uma sociedade começando a perceber que as ideias políticas não cabiam necessariamente num único eixo. Uma pessoa poderia ser conservadora em determinadas matérias e liberal em outras. Poderia defender o mercado sem abandonar a prudência institucional. Poderia valorizar a família sem transformar a religião em instrumento partidário. Poderia discordar da esquerda sem aderir automaticamente a tudo o que se apresentasse como direita.
A definição era imperfeita, mas refletia uma época de aprendizado.
Depois vieram os doutores da lei.
Vieram também as definições rígidas, os testes de pureza, os catecismos digitais e a necessidade de enquadrar cada pessoa num campo fechado. Já não bastava dizer o que se pensava sobre economia, costumes, instituições ou política externa. Era preciso declarar a que lado se pertencia.
O bolsonarismo acelerou essa transformação.
Liberalismo econômico, conservadorismo moral, militarismo, nacionalismo, antipetismo, religiosidade, identidade política e personalização da liderança foram reunidos sob uma mesma palavra, cada vez mais ampla: direita.
Não importava que muitas dessas correntes mantivessem tensões entre si. O conservadorismo clássico desconfia de movimentos de massa e rupturas institucionais; o liberalismo político depende de limites ao poder e respeito às regras; o cristianismo não deveria se confundir com brutalidade verbal ou desprezo pelo adversário; e o nacionalismo frequentemente entra em conflito com o liberalismo econômico.
Mesmo assim, tudo passou a ser tratado como se formasse uma doutrina única e coerente.
Não formava.
Formava, antes, uma identidade política comum.
A pergunta deixou de ser “o que você pensa sobre este assunto?” e passou a ser “de que lado você está?”. Escolhido o lado, esperava-se que todo o restante viesse no pacote: os mesmos aliados, os mesmos inimigos, as mesmas indignações e até o mesmo vocabulário.
Perdemos, assim, algo que aquela velha e defeituosa expressão ainda preservava: a percepção de que conceitos distintos continuavam sendo distintos.
Talvez “conservador nos costumes e liberal na economia” jamais tenha sido uma boa definição. Mas ao menos pressupunha que conservadorismo e liberalismo não eram a mesma coisa. Havia ali uma tentativa de compreender o mundo, ainda que rudimentar.
Hoje, em boa parte do debate público, essa tentativa parece ter cedido espaço à identidade.
Tudo virou direita ou esquerda. E, quando as palavras passam a significar tudo, acabam não significando mais nada.


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